BRASIL
Brasil: um carnaval de excelência
01/03/2010
RENATO REZENDE
Bloco Céu na Terra, no Rio
Incrível como os blocos de rua cresceram em número e volume durante a última década no Rio. Sinceramente, fico feliz com isso. Não sou um grande folião, não gosto tanto assim de carnaval, mas me agrada saber que o espontâneo, o imprevisível e o espírito pagão sobrevivem de forma mais ou menos saudável nesta cidade.

Munido de uma camisa de listras horizontais e um chapéu caribenho, participei de um ou dois blocos, para o vexame da minha filha, que, toda tímida, me acompanhou, mas fingiu que não me conhecia. Na folia, no meio de tantos rostos conhecidos e desconhecidos, senti que ali não estava vivendo simplesmente a minha vida, mas a vida da cidade como um todo, único e enorme organismo, uma vida coletiva: celebrávamos a cidade como um corpo espiritual, meio de todas as nossas vidas individuais. Uma sensação expansiva, gostosa, catártica – como, aliás, deve ser o carnaval –, principalmente sob o sol escaldante do Rio. Uma sensação luminosa, livre, que fui capaz de sentir sem a ajuda de nenhuma cerveja e de nenhum beijo na boca. Foi aí que me dei conta: o que aconteceu com o beijo na boca?

Mono Bloco, no Rio
Uns amigos ligaram de Salvador e disseram que atrás dos trios elétricos o negócio fervia como nunca, uma pegação danada, uma verdadeira maratona de beijos – a ousadia dos baianos, homens e mulheres, seria incomparável. Em comparação com a descrição deles, nossos alegres blocos, repletos de foliões fantasiados, pareciam aos meus olhos algo mais inocente. Mas então me lembrei de um detalhe: esses meus amigos em Salvador são bem mais jovens do que eu. Pensando bem, o beijo na boca no Rio continua rolando solto, a questão é que ninguém mais parece querer me beijar. E, para ser bem sincero, eu também não estou com tanta vontade assim de beijar qualquer uma indiscriminadamente. Isso não deixa de ser desalentador: estou envelhecendo. O fato de fazer parte de um corpo coletivo, de uma massa disforme, revelou então um lado inquietante: eu era de fato apenas um figurante na multidão (ou seja, fora do mercado erótico). Ninguém olhava para mim. Ou, melhor, nenhuma garota bonita olhava para mim, seus olhares simplesmente me atravessavam, sem se deterem no meu. Não sei se as feias olhavam, talvez esteja na hora de prestar atenção nelas.... Em todo caso, para quem foi um rapaz bastante atraente, envelhecer é particularmente chato.


Lembrei-me então do livro que estou lendo, sob uma perspectiva nova. Em Desonra, de Coetzee, o personagem Lurie é um professor universitário de 52 anos que “resolve seu problema de sexo” com uma puta, com quem se encontra todas as tardes de quinta. Tudo vai bem até que Soraya, a prostituta, resolve não vê-lo mais, e Lurie acaba se envolvendo com uma aluna de 20 anos. Não demora muito para a coisa degringolar para uma acusação de assédio sexual, e a vida do professor virar de cabeça pra baixo. Tudo indica que a punição será severa, e que sua vida se tornará um inferno.


Foliões se divertem no Carnaval
Por ora, abandonei o livro aí. A história é interessante, mas a narrativa me pareceu pobre. Estou lendo na tradução de José Rubens Siqueira, e não há como dizer que seu trabalho não é bom, mas mentalmente reproduzo o original, e resulta numa escrita bem mais elegante. Mesmo assim, ainda não fez minha cabeça. De qualquer forma, o que me interessa aqui é minha súbita identificação com o antipático Lurie, que no passado havia sido um homem charmoso e que agora sofre diante da indiferença das mulheres. É, meu chapa, eu sei o que é isso. Quando foi a última vez que arranjei uma namoradinha no carnaval, sem precisar nem mesmo dizer meu nome? Pois é, nem me lembro, faz muito tempo. Por sorte, pensei, comprando uma cerveja para me animar, não estamos na África do Sul ou em nenhum desses países puritanos de moral rígida. Além do mais, lembrei-me com alegria, meus amigos professores universitários volta e meia arranjam uma namorada ou namorado entre seus alunos, e está tudo bem.


Ainda bem que esse é o país do Carnaval. O espontâneo, o imprevisível, o transgressor podem sempre emergir e lembrar-nos que ainda estamos vivos. Ou seja, esse é um país de esperança. Além do mais, Lurie lembrou-me de mais uma coisa: as putas. Esse também é um país de excelentes putas! Definitivamente: viva o Brasil!

 
 
 
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