| LUCAS LANDAU |  |  | A ESTRELA. DONA ELIZABETH NA JANELA |  |
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| Todos os anos, durante o desfile do bloco Gigantes da Lira, o Rio de Janeiro se lembra, e sente saudades, do Rio de Janeiro. Uma manifestação completamente espontânea senta praça (literalmente) em Laranjeiras, e o carnaval volta a ser o que deveria – uma mistura de coceira com alegria e vontade de se apaixonar. Acontece assim: na Rua General Cristóvão Barcellos, no meio do percurso do bloco, a bateria para em frente a um edifício de janelas azuis e todos os foliões se voltam para uma delas. Lá está dona Elizabeth, uma senhora dos seus oitenta e tantos carnavais, sorriso e braços abertos saudando a multidão colorida. Como se estivesse ali a vida inteira, esperando todos aqueles convidados para comer um bolo que acabara de preparar.
O mestre de bateria então levanta o braço direito para os instrumentistas, em sinal de prontidão. Eles se rearranjam em poucos segundos de silêncio, virados em direção a dona Elizabeth. E começam a tocar Carinhoso ("Meu coração, não sei por que, bate feliz, quando te vê..."), de Pixinguinha e Braguinha, acompanhados por aquele coral imenso. Certamente, a maior serenata do mundo.
Dona Elizabeth manda beijos, se emociona, faz sinais de reverência. As pessoas que se acotovelam nas outras janelas da rua aplaudem e no início da segunda estrofe, quando, em uníssono, todos cantam o verso “Vem, vem, vem, vem” é irresistível deixar aquela cena desfocar. Não acredita? Dê uma espiada no vídeo abaixo...
E, assim como começa, a homenagem termina: muitos aplausos, assobios e uhus depois, dona Elizabeth vê a banda passar, cantando coisas de amor. A bateria segue o rumo do bloco, virando na Rua General Glicério até o ponto de encontro final, na Praça da Aliança, deixando um encontro marcado com dona Elizabeth para o ano seguinte. Ela ainda aguarda na janela alguns minutos, saudando os fãs de última hora. E logo volta para dentro de casa, um tanto mais feliz.
A janela e a ideia
| DIVULGAÇÃO/SEBASTIANA |  |  | PALHAÇOS. A ALEGRIA DAS CRIANÇAS |  |
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| Tudo começou por acaso, como devem ser as boas histórias. No sábado que antecedeu o carnaval de 2005, dia 29 de janeiro, o Gigantes da Lira deveria sair às 17h em ponto da Praça Aliança. Estava muito calor e a saída acabou atrasando alguns minutos – isso nos tempos em que os blocos ainda não eram patrocinados, nem tão lotados, e ainda podiam esperar o sol baixar para sair às ruas. Em 2005, spray de espuma era divertido e fazer xixi na rua ainda era só falta de educação.
A bateria seguiu o percurso tradicional, seguida por centenas de crianças fantasiadas. No intervalo da novela das 18h, dona Elizabeth foi até a janela. Quem percebeu a senhorinha de olhos curiosos foi o mestre Edmar. "Ela estava quase saindo quando viu o bloco chegando e ficou no parapeito. Estava um pouco cabisbaixa, e tive a idéia de cantar para que ela sorrisse. Pensei em Carinhoso por ser uma letra que todos saberiam cantar e porque qualquer instrumentista sabe tocar. Foi assim", conta ele, há sete anos à frente da bateria do Gigantes da Lira e há 16 na Banda de Ipanema, além de mecânico industrial na vida real. "Foi emocionante, ela sorriu e agradeceu a homenagem. Todos cantaram, foi lindo", orgulha-se.
No ano seguinte, 2006, lá estava dona Elizabeth na janela mais uma vez. Mestre Edmar não titubeou, e o que tinha sido uma graça espontânea virou, desde então, uma história de amor entre o carnaval e a senhorinha de cabelos brancos de quem nada se sabe. Ou quase nada: em 2007, mestre Edmar parou em frente à janelinha branca e a musa do bloco não apareceu. Ele deu o sinal para a bateria, que tocou o bate-feliz-quando-te-vê como se ela fosse aparecer em algum momento, mas nada. Dias depois, alguns parentes explicaram, nos comentários das fotos e vídeos sobre a epifania coletiva que pipocavam na internet: dona Elizabeth não aparecera aquele ano porque estava de luto pela perda do marido, no dia 1º de janeiro.
A volta da estrela
| DIVULGAÇÃO/SEBASTIANA |  |  | NA RUA. FESTA EM LARANJEIRAS |  |
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| Em 2008, dona Elizabeth reapareceu, e o fotógrafo Lucas Landau, fã da história, sacou seu celular. Registrou a homenagem não só em foto como em vídeo, para deleite dos foliões, que agora podiam compartilhar aqueles quase dois minutos de alegria. O link foi publicado pela criadora do bloco, a atriz e diretora de teatro Yeda Dantas, no jornal de bairro "Informativo de Laranjeiras", e virou a melhor lembrança de quem estava lá.
No ano seguinte, Lucas voltou ao bloco e, com o mesmo celular, registrou novo vídeo. Desta vez, a musa do Gigantes da Lira não se conteve e caiu em lágrimas, acompanhada por muitos foliões. "Ela é uma graça de pessoa, fica muito feliz já nas vésperas do carnaval... e no dia do bloco, se arruma como uma namorada que espera na janela", diz Yeda, que já foi vizinha de dona Elizabeth.
Também conhecida como palhaço Dr. Giramundo, o personagem que encarna desde a fundação do Gigantes, em 1999, Yeda se orgulha de manter o único bloco infantil do carnaval de rua do Rio, com a característica de reunir personagens do mundo do circo como palhaços, mágicos, pernas-de-pau e negas-malucas. Tudo isso sem confusão (o bloco passou a sair às 8h da manhã para evitar aglomeração) e sem carro de som. As marchinhas são conduzidas pelos 45 integrantes da bateria, comandada pelo mestre Edmar.
É Yeda quem dá a dica: para manter o clima lúdico, é preciso respeitar a nossa musa, e ela não gosta de entrevistas. O que já tinha dado para perceber dias antes, quando dona Elizabeth atendeu o telefone: "Ô, minha filha, muito obrigada, mas eu não gosto de entrevistas...". Recado entendido, dona Elizabeth. Ah, se tu soubesses...
Veja a serenata de 2009:
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