BRASIL
Big Brother na roça
30/03/2007
DUQUE. À espera do kit-ração
O chup-chup da dona Maria oferece: Muro Brother Brasil. O programa de maior audiência da Globo ganhou uma versão mais reality no show da TV Muro. No início da ladeira do Morro São Francisco, na cidade mineira de Sabará, fica a casa do funcionário público Francisco Dário dos Santos, o Chiquinho Mial, criador da menor emissora de televisão do mundo. Sete câmeras, espalhadas pela casa de cinco cômodos, registram diariamente a intimidade dos oito moradores. O cotidiano da família semiconfinada é exibido de 19h às 23h, sem cortes e edição, para os vizinhos que acampam em frente ao muro. O sinal é distribuído, pelo canal 11, para outras cinco casas do bairro.


A exemplo do milionário Big Brother Brasil 7, a atração de Sabará também tem seu queridinho. No lugar do topete louro do surfista Diego Alemão, os mineiros se rendem ao pêlo dourado de Duque, um vira-latas com ar de cocker spaniel. Os adversários até se esforçam para roubar a cena do mascote. Até agora, o pico de audiência ficou por conta de uma briga de cunhadas transmitida ao vivo para a vizinhança. Mesmo assim, Duque é favorito para o acanhado prêmio de uma cesta básica. Atentos ao favoritismo do canino, os organizadores já estudam converter o prêmio em um kit-ração.

Em noite de "murão", os sabarenses acompanham atentos a indicação do líder. Decidem quem será eliminado com batidas no portão de ferro. Os eliminados deixam o programa com uma trouxa amarrada num cabo de vassoura. O confessionário fica no único banheiro da casa. Por isso, uma das regras do Muro Brother é só usar a dependência "em caso de extrema necessidade" enquanto o programa estiver no ar.

Taís, de 7 anos, lidera o jogo

TAÍS. Líder aos 7 anos
Chiquinho Mial comanda as provas para escolher o líder da semana. Na última disputa, os confinados responderam perguntas sobre a história de Sabará. A liderança agora está com a pequena Taís, de 7 anos. A indicação sempre provoca cara feia entre os participantes. A discórdia costuma se estender pela semana, mesmo quando o Muro Brother não está no ar.


Outra forte candidata do reality show mineiro é Maria Piedade dos Santos, mãe de Chiquinho e produtora da TV Muro. Ela prepara, ao vivo, o jantar da família. Os dotes culinários caíram no gosto das mulheres que acompanham o programa. Algumas telespectadoras anotam as dicas da confinada. Maria ganhou o apelido de Mãe Braga, em alusão a outro programa global, em que a apresentadora Ana Maria Braga ensina receitas ao vivo.

Além das sete câmeras que espiam a vida da família Santos, outro equipamento incrustado no telhado da casa filma as pessoas que estão na rua acompanhando o programa. Chiquinho usa a "câmera do povo" para captar perguntas dos telespectadores. Os participantes respondem e interagem com a audiência, medida por Maria do buraco do portão. A mãe de Mial acumula funções na TV Muro. Faz o trabalho de produção, coordena reuniões de pauta, participa do Muro Brother, mede audiência e, agora, com o sucesso das receitas ao vivo, comanda a atração "A hora da janta" na pequena emissora.

Parceira das inventividades do filho, a senhora de 68 anos prestava-se ao papel de dubladora da galinha que interagia com Chiquinho no extinto Jornal Legal. A atração acabou quando Giserda, a ave de unhas pintadas de vermelho, morreu. O único retorno de Maria Piedade para tanto esforço é a venda de chup-chup. A guloseima de nome onomatopéico – suco de fruta artificial congelado em saco plástico - também é conhecida como sacolé em algumas capitais do país. Chiquinho conta que os anúncios do chup-chup nos intervalos do Muro Brother aqueceram o empreendimento da mãe. O produto sai por
R$ 0,10 na porta da casa.

- Depois de anunciar, minha mãe vendeu 150 chup-chups durante a semana – comemora.
 
Dez anos em cima do muro

CHICO. Professor Pardal de Sabará
Histórica como Ouro Preto, Tiradentes e outros berços do barroco mineiro, Sabará ainda é a irmã acanhada do turismo cultural. Agora, além de referência como produtora de cachaça e jabuticaba, é conhecida como cidade-sede da TV Muro. Dez anos de trabalho se passaram desde o dia em que Chiquinho pôs a primeira televisão em cima do muro.


- Coloquei uma TV de sucata, virada para a rua, e desenhei umas notícias no papel de computador. Depois rodava a manivela para passar os quadros. Muita gente me chamou de doido, mas algumas pessoas disseram que isso era muito criativo, coisa de Professor Pardal – orgulha-se.

O pai de Chiquinho era projetista do extinto Cine Bandeirantes, o único cinema da cidade, que agora se rende à fúria imobiliária das igrejas evangélicas.
Durante a infância e adolescência, a narrativa dele era o contato mais próximo do rapaz, agora com 33 anos, com o universo das imagens em movimento. O pai não chegou a ver a evolução tecnológica do filho na TV Muro. Morreu em 1990.

Apesar de trabalhar na prefeitura, Chiquinho não recebe ajuda da cidade. A maior parte do material usado para levar a TV ao ar foi doado por jornalistas e apresentadores durante as muitas entrevistas que concedeu. Sonha ganhar um computador e uma TV maior para substituir a de 14 polegadas que fica sobre o muro. O Professor Pardal mineiro ganha um salário mínimo como servente de escola primária. Foi desviado de função e agora trabalha como cinegrafista da secretaria de comunicação de Sabará.

Emissora transmite jogos de várzea

TV MURO. Uma emissora popular
Quando não está na prefeitura, o criador da TV Muro gasta o tempo livre com a programação da emissora. O Muro Brother é o carro-chefe, mas entre os outros programas destaca-se o Muro Espetacular, atração esportiva do canal 11. Fazendo as vezes de Galvão Bueno e equipe, Chiquinho, o cinegrafista Thâmer Pimentel e o diretor Jorge Luis Borges cobrem as peladas disputadas num campo de várzea conhecido como La Bombonera - uma espécie de vale que lembra, dizem os peladeiros cobertos de poeira vermelha, o estádio argentino.


- Depois do jogo, os meninos passam na casa do Chiquinho para ver o vídeo da partida e comprovar se foi pênalti mesmo – conta Thâmer.

Se os boleiros são contemplados com a programação da TV Muro, as beatas também não podem reclamar. Aos domingos e feriados, a missa da Igreja de São Francisco é transmitida ao vivo graças à "bike link". A bicicleta é equipada com um link de televisão que Chiquinho achou no lixo. Mesmo sucateado, o transmissor funciona bem e a TV Muro consegue fazer entradas ao vivo de outros pontos da cidade. Quando a igreja está cheia e os fiéis não conseguem um bom lugar para ouvir as palavras do padre, a audiência da televisão sobe. As vendas do chup-chup de dona Maria Piedade também.

Ainda na grade de entretenimento, ao melhor gosto de cidade mineira do interior, o programa preferido das mulheres é o Domingo do Fuxico. A equipe entra no ar para destilar todo veneno contra vizinhos e amigos - tudo em clima de brincadeira, claro. Entregam os novos amores dos conhecidos e fazem papel de cupido para os mais tímidos, que não têm coragem de se declarar.

A central jornalística da TV Muro atua em defesa do meio-ambiente e recebe denúncias e sugestões de pauta que chegam em papéis enroladinhos e enfiados na fresta do portão da casa 299 da Rua São Francisco. É a sede do já famoso Murojac.

 
 
 
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