BRASIL
A feira do povo
28/02/2007
BERNARDO CALIL, DE MACEIÓ
PAULO DE CASTRO
Um olho na mercadoria, outro no trem
A vida em Maceió desce do bairro do Farol para o Centro como quem vai do paraíso das águas quentes e cristalinas do mar verde-turquesa ao inferno dos séculos de desgovernos na segunda capital mais desigual do país. Da parte alta, a ladeira chega à Catedral de Nossa Senhora dos Prazeres, padroeira da cidade, no início da Rua do Sol. Lembrada por Chico Buarque em Bye-bye Brasil, leva em alguns passos ao Palácio dos Martírios, sede do governo do estado.

Nada é por acaso. Nem a curta distância entre o centro do poder alagoano e a Feira do Rato, a feira do povo, onde se compra, vende e troca de tudo que a mente possa alcançar e as mãos possam carregar.


As barracas se amontoam por cerca de 200 metros ao longo de ambos os lados da linha do único trem da cidade, e nas ruelas próximas. A cada meia hora, as locomotivas apitam e começa a correria para retirar as bugigangas de cima dos trilhos. Alguns nem se dão o trabalho. Deixam entre um dormente e outro. A poeira e o chão de terra estão longe de ser um incômodo. Para tudo há solução na Feira do Rato.

Jaburina Branca esquenta e penetra

FOTOS DE BERNARDO CALIL
Santo remédio: esta resolve tudo
“Se o seu problema é dor de cabeça, dor de dente, ouvido, coceira, frieira, varizes, estria, congestionamento nasal, topada, garganta inflamada, reumatismo, não consegue dormir, tem prisão de ventre, você acha a solução aqui, cavalheiro. A pomada Jaburina Branca esquenta e penetra, e não precisa massagear. A pomada Jaburina Branca vem de Machadeiro, da Serra do Araripe, na minha Juazeiro do Norte”, anuncia Edmilson Serra, em sua Brasília com alto-falante no capô. “Em dois a três minutos, a pomada Jaburina Branca acaba com a sua dor, seu incômodo, sua olheira, seu cansaço. Ela pode também ser dissolvida em um copo d’água e curar os males da sua laringe, cavalheiro”.

Edmilson não é diferente da maior parte dos feirantes. Tem 38 anos, aparenta passar dos 50. Há mais de três, oferece o milagroso produto aos passantes por apenas dois reais. Uma pechincha.

“Isso aqui eu trago lá do Ciará, minha terra. É feito de pó d’óleo, piqui, pó paibó, bálsamo e a matéria-prima da cera da jaburina. Experimenta aqui, sem compromisso!”, e passa o dedo untado na mão do repórter. Branco, consistente e inodoro. “Isso cura até mau-olhado”. Diz vender uma caixa por dia.

Alguns passos a frente, dez homens se amontoam em uma roda fechada, num burburinho incompreensível. No centro, quatro deles mostram celulares e cordões dourados nas palmas das mãos. Negociam preços, mas aceitam ofertas.

“Esse celular aqui pelos teus dois cordões”. “Tem câmera?”. “Tem não”. “Bota mais 20 e leva logo embora”. “Dou dez”. “Aí fica ruim”. “Dou 15”. “Tá certo”.

Ao lado, o vendedor de DVDs piratas (quatro por dez reais), alheio à bolsa de valores popular, toma conta de sua miniloja e assiste, sentado num banquinho de madeira, ao noticiário do meio-dia. Está num de dezenas de cubículos de um metro por um metro e meio ao longo da via, comprados por 300 reais. “Aqui é bom, ganho mais do que quando trabalhava na cidade. Os polícia só aparecem pra comprar DVD”, brinca Geraldo Silva, 45 anos.

Em alta, o veneno de rato

O trem passa, a garotada corre
Antes, o lugar era conhecido como Feira do Passarinho, pela quantidade de aves empoleiradas nas centenas de gaiolas ao longo do trilho. Hoje, é impossível dizer o que se vende mais.


“Rapai, já vendi pano de chão, vassoura, televisão usada, já vendi macaxeira, carne de sol, manteiga de garrafa. Mas nada disso dá dinheiro não. O negócio é esse veneno do bão aqui. Isso vende muito, quase não tenho mais”, diz Seu Gildo, 62 anos, 20 de feira, sentado em sua cadeira de praia. “Pelo menos não é fruto de malandragem que nem os caba da bicicleta aí”.

A mesinha de veneno de rato fica ao lado de uma enorme concentração de bicicletas embaixo da amendoeira. É referência na feira. O produto chega e sai na velocidade das ratazanas (ou gabirus) que circulam pelos bueiros. Por cinqüenta reais, negócio feito.

“Quanto você quer nessa máquina de foto aí?”, “Não está à venda, amigo”, “Tem essas duas bike aqui, novinhas, vai?”.

Quem não vai de bike, corre atrás do trem, como os meninos que se divertem quando o maquinista diminui a velocidade. Acidentes acontecem, mais com a garotada por trás do que com um atrasado que não consegue sair da frente.

“Às vezes, a gente escuta falar de um ou outro que toma cana mais do que deve e acaba dando trabalho aí, cortando uma perna. Mas é difícil. Ninguém morre disso não, só em desenho animado”, lembra Seu Gildo.

No calor saariano de Maceió, a Feira do Rato está longe da ilusão dos quadrinhos. É a feira do povo. Em duas ruas, alcança a Praça dos Martírios, não à toa. No paraíso governado pelo demônio, como gostam de dizer os alagoanos, os trilhos da feira são o caminho de onde o trem não tira.

 
 
 
( Comente aqui - 0 Comentários )
 
Fique ligado

Ver todos os Posts


 
Home  I  Brasil  I  Artes  I  Fotojornal  I  Almanaque  I  Sobre Nós  I  Fala Leitor  I  Links  
Design Veronica d' Orey  |  Rafael Fittipaldi  |