BRASIL
Alô, é da Academia?
08/02/2007
JOSIE JERONIMO

FOTOS DE RONY MALTZ
Concentração: o intelectual no gabinete
Sérgio. Mas sem acento. Afinal, nasceu antes de agosto de 1943, quando a gramática mudou mais uma vez e os ditongos crescentes passaram a carregar o sinal gráfico. Não há explicação que escape de Sergio Pachá, guardião das regras de português da Academia Brasileira de Letras - ou lexicógrafo-chefe, como manda o padrão culto. O estudioso é uma espécie de oráculo da língua portuguesa. Durante o plantão no templo moderno, o quinto andar do edifício anexo ao Petit Trianon, responde consultas por telefone e email. Nos intervalos, dedica-se à leitura da edição eletrônica do jornal New York Times.

Triiiiiiiiiiiiiim! O lexicógrafo pega o telefone: "Academia Brasileira de Letras, boa tarde". Do outro lado da linha, o grave/agudo de uma voz adolescente pergunta, com sotaque gaúcho: "Oi, gostaria de saber por que o i tem pingo. Meu professor prometeu um dez para quem trouxer a resposta". Pachá, que sempre teve resposta para tudo, fica surpreso. Vasculha dezenas de enciclopédias brasileiras para encontrar a justificativa, e nada. Um dia depois, estante devidamente revirada, descobre a resposta num dicionário de língua inglesa. E se alivia ao explicar, por email: antes das técnicas
modernas de impressão, o i recebia um traço para diferenciar o entalhe da letra. Com o tempo, o sinal evoluiu para o pingo.

Atrás da mesa de trabalho, o desconhecido intelectual de cabeleira branca e revolta tira dúvidas de brasileiros de todos os estados. Com espírito manso e voz calma e pausada, fala em nome dos imortais, mas avisa que a ABL não é dona do idioma:

- A Academia é vista como o árbitro da correção da linguagem. Mas isso não quer dizer que tenha força legal para fazer qualquer imposição.

Um democrata da língua

No espelho com Machado de Assis
Os consulentes não pensam assim. Telefonam e escrevem com a força dos inquisidores: "Solicito à ABL que tome uma posição sobre o uso da palavra técnico, muito comum no ambiente em que trabalho", escreveu uma moça que não gostava de ser chamada pela referência masculina. Quem liga costuma exigir regras duras e mudanças para o que considera inadequado. Pachá conta que os advogados são assíduos. Leais ao juridiquês, ligam para tentar incorporar ao idioma
expressões nascidas dos autos de algum processo. Não critica a classe. É um democrata da língua. Rejeita purismos e conta que até mesmo os gregos, povo tradicionalmente marítimo, recorreram ao empréstimo lingüístico para denominar o mar. A palavra talassa não existia no idioma. Por isso, o lexicógrafo-chefe trata os dicionários como um guia limitado da riqueza idiomática.

- A palavra não passa a existir a partir do momento que é registrada no dicionário. Vai para lá depois de existir - explica.

Assim como não condena a comunicação truncada dos advogados, assume o papel de defensor do português horizontalizado dos jornalistas. Certa vez, recebeu um email revoltado de um consulente que despejava toda a fúria gramatical contra os profissionais de imprensa. Na mensagem, indagava o surrupio do pretérito perfeito das manchetes jornalísticas. Achava um afronte a arrogância dos comunicadores em sincronizar o tempo do mundo com o das rotativas. "Morre no Rio de Janeiro o Grande João da Silva. Morre? Ele já morreu, então já aconteceu. Pretérito perfeito", bradou o anônimo fiscal da língua.

O crítico mereceu três páginas de resposta. Além da explicação teórica e dezenas de referências bibliográficas, ganhou de presente versos de três poetas. Todos citados de cabeça, como o trecho de Os Lusíadas em que Luís de Camões deixa o passado de lado.

Cabeças pelo campo vão saltando
Braços, pernas, sem dono e sem sentido,
E de outros as entranhas palpitando,
Pálida a cor, o gesto amortecido.
Já perde o campo o exército nefando,
Correm rios de sangue desparzido,
Com que também do campo a cor se perde,
Tornado carmesi de branco e verde (Lus.,III, 52)

- Eu conheço bem Camões - diz Pachá, esfregando os olhos para disfarçar a timidez pelo flagrante abuso da erudição. - A próxima vez em que ele criticar jornalista, vai pensar duas vezes. Pode até criticar, mas não por essa razão.

Imortais com prazo de validade

Pachá domina 5 idiomas, inclusive o latim
Mas há também, entre os consulentes, quem se desespere com a limitação do português e sugira novas palavras. A esses, o filólogo simula, com brejeirice, o que aconteceria se todas as mudanças fossem acatadas:


- Emengarda da Silva é uma brilhante quimieira industrial que estudou engenharia quimiária no Japão e também leciona química em uma escola profissionalizante.

Doutor pela Universidade da Califórnia e dono de uma erudição incomum, Pachá domina cinco idiomas. Traduziu os Manifestos do Surrealismo, de André Breton, e agora trabalha nas intervenções de Ruy Barbosa na Segunda Conferência da Paz, de 1907, em Haia, que serão publicadas este ano. Lê e escreve em latim, conhece por dentro a língua e o contexto dos textos clássicos, mas reverencia todos os imortais da Academia da pequena sala que divide com outros três funcionários. Em sua mesa, mantém a foto da gata Isolda - que morreu há poucos meses, depois de viver 19 anos com o filólogo - e pequenos vasos de cerâmica marajoara. Trabalha na ABL há cinco anos, desde que foi convidado pelo imortal Evanildo Bechara.

Suas respostas são verdadeiros tratados de gramática. Mesmo assim, com a paz dos simples, diz que dar a resposta mais completa é seu trabalho. Preserva-se de criticar a influência da indústria literária na indicação dos que vestirão os fardões, mas traça a diferença entre acadêmico e imortal.


- Não sei se todos os acadêmicos serão imortais daqui a 20 ou 30 anos. Mas tenho certeza que todos os imortais atuais são acadêmicos - sentencia.

+ Pergunte ao Pachá: scpacha@academia.org.br


 
 
 
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