|
| Fotos de Roberto Menezes/O Liberal |  |  | Drags no palco: mudança de hábitos |  |
|
|
| Paraense que se
preze enfrenta a corda de peregrinação no Círio de Nazaré na segunda
semana de outubro. No sábado à noite, muitos aproveitam para escapulir
do armário ao som do carimbó na Festa da Chiquita, tradicional encontro
da diversidade sexual no Centro de Belém. Mas a primeira parada gay do
Brasil - e única no mundo a integrar um calendário de comemorações
religiosas - não enreda apenas o povo amazônico. Inúmeras carolas que
desembarcam no Pará em busca de um espetáculo de fé terminam empurradas
para o festejo profano.
A Nossa Senhora de
Nazaré - ou Nazinha, como gostam os locais - despede-se dos fiéis em
frente ao palco onde drag queens de peitos de fora convertem os
peregrinos aos pecados da carne. Desperdício de penitência? Não, os
paraenses acreditam que os sacrifícios do Círio limpam a alma o
suficiente para se permitirem alguma extravagância da carne.
No sábado, a corda
de peregrinação atrai principalmente os mais jovens. Os vestibulandos
paraenses formam um cordão humano, imprensam-se na esperança de que
Nazinha opere o milagre que os anos mal aproveitados de escola não
resolveram. Esquecem logo a dor das mãos e dos pés para rebolar o
carimbó em ritual de exaltação à diversidade. Os turistas também não
faltam: já na procissão marítima são avisados da festa.
- Viajei para ver a
peregrinação da corda, mas não quero perder essa tal Festa da Chiquita
- confessava, na último Círio, a fotógrafa capixaba Carolina Youri.
A eleição do Veado de Ouro
|  |  | A festa é o lado B do Círio |  |
|
|
| É impossível
escapar. Mesmo os não festeiros ficam pelos menos para "dar uma
olhadinha". Afinal, a procissão termina onde começa a festa. E a
Chiquita segue noite adentro. Só termina com a eleição do Veado de
Ouro. O prêmio é uma homenagem a intelectuais ou artistas que
contribuíram, de alguma forma, com a defesa da diversidade sexual. O
ritual de trasladação da imagem no sábado funciona como abertura da
Festa da Chiquita. É como se a santa católica abençoasse a parada gay,
para desespero dos marianos mais conservadores.
Alguns padres de
Belém torcem o nariz para a Chiquita. Outros têm simpatia. Não
defendem, mas justificam o ritual profano como uma forma alternativa de
ampliar o turismo religioso na região. O aval da igreja produz cenas
que poderiam ser tachadas de contraditórias. Senhoras com terços no
pescoço, resto de velas nas mãos e camisetas estampadas com a imagem da
santa acompanham a apresentação das drags. Bombardeadas pelo
vocabulário escrachado, assistem timidamente ao show das laterais do
palco.
O público gay
esquece os pudores. Troca beijos apaixonados e vibra todas as vezes que
as drags seminuas desfilam no palco e esfregam a bunda na cara dos
músicos do Borboleta do Mar, grupo de senhores que tocam carimbó. A
parte mariana da platéia ensaia vaias, mas as beatas não arredam o pé.
Todos querem saber quem será o Veado de Ouro. Valter Assis da Silva
chega com a cara amarrada. Poderia ser mais um dos católicos curiosos
que "passam pela festa", não fossem as pedrinhas de strass no chinelo e
o delírio ao ver uma drag chifruda dizendo obscenidades no palco.
- Nossa Senhora de Nazaré, obrigada por me trazer aqui - ajoelha-se, tapando os olhos com as sandálias.
Em meio ao choro
copioso, Valter é acudido, mas diz que está bem. Conta que saiu de
bicicleta de Ananindeua, a 12 quilômetros de Belém, para ver a
Chiquita. Ou melhor, o Círio de Nazaré.
Concorrência com a Igreja
|  |  | Eloy Iglesias, o postar da Chiquita |  |
|
|
| Sem os chifres na
cabeça e a maquiagem pesada, o animador da festa se apresenta como Eloy
- o Eloy Iglesias. O cantor ganhou projeção com a Festa da Chiquita. A
parada ganhou as telas o documentário "As filhas da Chiquita", exibido
no festival Mix Brasil. Numa das cenas, Eloy vai à Delegacia de Polícia
Administrativa de Belém em busca da autorização para a festa. O artista
conta que a Chiquita convive em harmonia com o festejo religioso.
Atribui a contradição entre a parada gay e o Círio ao monopólio que a
Igreja tenta impor. Mas diz que a participação popular na festa é um
fenômeno incontrolável.
- O Círio de Nazaré
já faz parte da cultura paraense. Extrapola a fronteira religiosa.
Durante o Círio, em todos os municípios do Pará existem homenagens
exclusivamente regionais, cada uma com sua peculiaridade. A festa
sempre teve o lado profano. O Auto do Círio é um bom exemplo disso -
acrescenta.
O Auto é uma
encenação realizada por estudantes de teatro da Universidade Federal do
Pará. Inspirado na paixão de Cristo, acontece desde 1993, em frente à
Catedral da Sé. Assim como a Chiquita, tem um tom de deboche: os
personagens bíblicos passam por um processo de "humanização" que torna
a releitura um tanto quanto profana. Jesus Cristo, por exemplo, aparece
requebrante e de fala efeminada. No ano passado, os organizadores
protestaram contra a falta de patrocínio do governo do Pará. A atração
costuma contar com a presença de artistas de renome nacional, mas em
2006 não teve dinheiro para contratar ninguém.
Há 30 anos, a
Chiquita divide as atenções durante a homenagem à Nossa Senhora de
Nazaré. Intercalada entre as duas maiores procissões do festejo
religioso, a parada gay obriga os fiéis a emendarem a madrugada profana
com a manhã de sacrifícios do domingo do Círio. Antes de o sol dar as
caras, muitos descem direto para o mercado Ver o Peso, onde a disputa
por um lugar na corda é acirrada. A berlinda de Nazinha precisa ser
puxada, apesar da farra noturna.
A última corda, no
domingo, reúne mais de dois milhões de pessoas. Os fiéis percorrem um
trajeto de quatro quilômetros em quase 10 horas até a Basílica, no
bairro Nazaré. O ritual representa o esforço dos paraenses em levar a
santa de volta ao lugar de origem.
Assista ao trailer de "As filhas da Chiquita"
|