Artes
Wando é cool
25/05/2010
MARIANA FILGUEIRAS
FOTOS DE MARIANA FILGUEIRAS
NA MÃO - O objeto de desejo
Em uma noite quente de março, Wando chega ao camarim do palco principal da Feira de São Cristóvão, na zona norte do Rio, acompanhado por dois seguranças, a poucos 20 minutos para o início do show. Cerca de duas mil pessoas – mulheres – já gritam seu nome na arena construída originalmente para apresentações de forró e repente. Mas Wando não se atrasa. Troca a camisa de viscose estampada por outra de viscose preta, combinando com os cabelos, tingidos de asa-de-graúna. Em poucos minutos está pronto.

"Já sou concentrado por natureza",  brinca o intérprete romântico, no cubículo dois-por-dois que divide com uma mesa de frutas. Deixa entrar doze fãs – "Só doze!", grita o segurança – para fotos rápidas, experimenta os óculos escuros, olha-se no espelho, desiste, mordisca uma uva verde e toma a escada que leva ao palco.

Este é um show especial. O "único cantor erótico do Brasil", como se autointitula, vai subir à ribalta carioca depois de cinco anos sem lançar qualquer disco, com uma agenda de apresentações minguadas em restaurantes do interior.

Preguiça de gravar

WANDETES - O ídolo na cabeça
É a primeira vez que Wando fica tanto tempo sem gravar: entre 1973 e 2002, fez 26 discos, uma média de quase um por ano. Em 2005, lançou uma coletânea chamada Romântico brasileiro, sem vergonha. Desde então, não entrou mais em estúdios. Mas Wando parece não se importar: "No Brasil e no mundo, ninguém mais faz um disco por ano. Eu queria fazer um disco este ano, mas estou com preguiça. A gente faz um disco, aí tem que colocar na internet, não vende...", lamenta o ídolo, que garante ter mais de 30 composições novas embaixo do colchão d’água.

"Como eu tenho um repertório grande, um disco novo não me faz falta. Pode até fazer falta para os fãs, mas não para mim. Eu estou compondo, estou cantando, mas o processo de gravar um disco hoje é muito complicado".

Wando resistiu enquanto pode às demandas digitais. Seu website ainda está em construção, e ele acessa pouco o wando@wando.com.br. Fica surpreso quando toma conhecimento dos mais de 10 mil fãs pela internet, reunidos em aplicativos e comunidades com títulos sugestivos como "Eu jogo a calcinha para o Wando!", ou "Eu já Wandalizei!". Esta lançou na rede a expressão "wandalizar": o ato de olhar para as mulheres com aquela cara de Wando, uma espécie de "Olhar 43" remixado.

Parte dessa nova leva de fãs de Wando está ali no show de São Cristóvão, misturada ao séquito tradicional. São cocotas moderninhas, que acham Wando "autêntico" e "sincero" no seu erotismo rasgado. Moças de calcinhas com design, que pagam 5 reais no ingresso, mas nunca 25 reais no disco. Elas vão em bando ao programa exótico e dizem adorar o cantor, mas quando tentam lembrar outra música além de Fogo e Paixão... "Tem aquela da novela, ai, como é mesmo?", pergunta-se Fernanda Viana, 21 anos, estudante de fisioterapia, os belos olhos verdes emoldurados por uma faixinha vermelha escrita em purpurina prateada – "Wando, sou fã" – comparada por um ambulante a um real. Não lembra, nem com a ajuda das quatro amigas.

Wando in Rio

NA CARA - Ele esfrega, elas gritam
"Tenho reparado que há um público novo nas minhas apresentações, acho que é essa onda de que tudo que era antigo agora é moderno, né?", reflete o cantor. "Mas o público fiel também se renovou. Eu faço um trabalho de muitos anos. Acho que as mães ensinaram aos filhos a gostarem das minhas músicas. A minha carreira só é forte por isso, porque o público vai se renovando naturalmente. Eu fico feliz que gente jovem venha me ver", conta Wando. De olho neste filão, o empresário da noite carioca Leo Feijó está sondando o cantor para uma temporada de shows no Cinemathèque, com convidados moderninhos e festa descolada na sequência. A idéia surgiu justamente depois do show na Feira de São Cristóvão, tantos foram os amigos que comentaram com ele o sucesso da noite.

"Eu gravei com a Claudinha Leitte, meu bem. Fiz filme do Chico Buarque", gaba-se, numa referência à participação no filme Benjamin, baseado na obra homônima de Chico e dirigido por Monique Gardenberg. "Tá pensando o quê?" 

O compositor segue "uiwando paixão" e brincando com as fãs nas apresentações – desta vez, a produção do evento não conseguiu, a tempo, a bacia com as maçãs-do-amor para distribuir para a plateia, mas as rosas vermelhas estavam lá. "Eu tenho uma boa conversa com o público feminino, elas entendem o que eu estou falando. É bom falar para a mulher, ser favorável à mulher, estar ao lado delas. Os maridos ficam encucados, porque eu falo algumas verdades", ensina. Que verdades? "Hoje em dia as coisas estão muito rápidas, para chamar a atenção o cara puxa o cabelo, belisca. Que isso? A conquista ficou sádica! Eu represento o cara que ainda manda chocolates".

O lado sedutor, garante, agora é só no palco. Wando confessa que há muito parou com os excessos: "Chega uma hora que a gente cansa. Hoje descobri o prazer de ficar em casa, com a minha mulher. A confiança, a parceria, são coisas que só o tempo e a maturidade dão", sentencia, sossegado.

Na onda dos documentários musicais, Wando não quer dormir camarão. Já está acertando detalhes com uma produtora paulista para fazer um filme sobre sua carreira, que deve ser lançado até o ano que vem. Assistiu aos filmes sobre as vidas de Simonal e Waldick Soriano, mas pensa em algo diferente. "Quero um filme bem realista. Não basta fazer qualquer coisa, ligar a câmera e sair falando. Mas eu também acho que as coisas simples funcionam muito mais do que as complicadas", filosofa. "Só sei que quero uma cena em que eu esteja cantando num palco coberto por todas as calcinhas que eu já recolhi nos meus shows. Estão todas guardadas, esperando este momento".

 
 
 
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