Artes
O homem de 90 livros
14/10/2006
Vivian Rangel

André Coelho
O escritor com o primeiro livro, de 1961
À la Guimarães Rosa, Pedro Matos datilografa quase em transe. Garante que já completou obras de 200 páginas em dois dias. Às vezes, ao desenhar o ponto final, não se lembra do enredo do livro. Mas não faz concessões à gramática ou à memória: nunca revisou uma das 90 histórias que escreveu. Pernambucano radicado no Rio há cerca de 50 anos, ele ainda não sucumbiu ao Pão de Açúcar: todos os livros têm como cenário o centro histórico do Recife. Apesar de tantas obras próprias na estante da biblioteca, o sonho da publicação só foi satisfeito há cinco anos. Em edição independente, mas com posfácio do imortal Josué Montello. Apoio que conquistou com talento literário e uma dose de malandragem.

O jogo de cintura, Pedro moldou ainda na juventude, nas ruas do Recife, onde se encantou com os antros de bebedeira, jogatina e prostituição. Aos 12 anos, começou a trabalhar para bancar o cigarro e o gosto precoce pela cerveja. Nas ruas do Recife Antigo, a lei da boêmia era mantida pelos cabras-machos. Naquela época, conta o escritor, a peixeira não dava chance ao martelo de juiz.

- O trabalho era árduo, mas domingo era dia de usar o terno engomado e passear. Havia tantas moças bonitas na cidade... e passeio de homem solteiro, como se sabe, nunca pode ser tranqüilo. Mas era sempre cuidadoso. Quem mexesse com a mulher dos outros entrava na faca – relembra o escritor, hoje viúvo.

Prostituição, crime e traição

 

André Coelho
No baú, elogios em jornal amarelado
O cenário da contravenção está em "O esqueleto", seu primeiro livro publicado. A protagonista da história é uma mulher da vida, do tipo, como define o escritor, "chegou, fez, pagou, saiu". Mas, longe do perfil experiente e sensual, a mocinha de Matos tem o charme da inocência perdida. Apaixonada, deixa-se prostituir pelo próprio namorado. E chega ao cúmulo de pagar a fiança do mancebo quando ele é condenado por cafetinagem.

- Acho que 70% dos meus livros falam de prostituição. Gosto do tragicômico, de livros que façam rir numa página e chorar na próxima. E não sou daqueles saudosistas, não acho que os tempos mudaram tanto. Os crimes e as traições sempre aconteceram – garante.

A história de amor insano, embora com a ressalva de graves erros de gramática, foi aprovada por um gentil Josué Montello. Com dezenas de inéditos na estante e cansado de enviar originais em busca de apoio para a publicação, Pedro Matos tentou uma tática diferente ao enviar o volume para o imortal.

- Junto ao livro, remeti uma carta onde dizia que era maranhense como ele e pedia uma opinião sobre o texto. Ele, que tinha como princípio não ler originais, comoveu-se com a obra do "conterrâneo" e me mandou um testemunho elogioso – orgulha-se Matos, mostrando a carta escrita de próprio punho por Josué Montello, que em meio a comentários sobre a narrativa refere-se a ele como patrício.

"Quando escrevo, sofro muito"

Aposentado, o escritor persistente mora num sobrado em Campo Grande, no subúrbio do Rio. Nas estantes de sua biblioteca, próximas a uma mesa de bilhar, estão volumes de Camões, Jorge Amado, Sarte, Dostoievski. E também curiosos guias de sexo e anatomia. Livros que serviram de inspiração para as 90 histórias catalogadas por título e data em duas estantes. Obras que ganharam espaço e importância na vida do escritor quando ele, que matava aulas na escola, descobriu "Robinson Crusoé" (Daniel Defoe) e "Éramos seis" (Maria José Dupré). Ao ler o primeiro Jorge Amado não parou mais. E decidiu escrever suas próprias histórias.

Juntou o salário de quase um mês trabalhando como enfermeiro na Frota Nacional de Petroleiros, subsidiária da Petrobrás, e comprou uma Olímpia. Era o ano de 1954 e havia pouco o que fazer em alto-mar. Datilografou os primeiros contos e, sete anos depois, o livro primogênito: "A outra face do homem". Em 1965, enviou o original para o crítico Antonio Olinto, na época no Globo, que garantiu: "A obra é fruto de um romancista com grande poder de observação e capacidade cinematográfica". Romancista persistente que, mesmo aos 82 anos sem qualquer original aceito por editora, acaba de começar o livro de número 91.

- Conto a história de vidas passadas, é sobre um delegado que leva um tiro e revive algumas coisas. Quando escrevo, sofro muito e penso em parar. Mas nem a dor na coluna me impede de escrever. Nunca volto atrás, nunca paro ou edito. Sei que preciso continuar e quando releio algum livro é sempre um espanto. Penso: quem será que escreveu isso?

 
 
 
( Comente aqui - 0 Comentários )
 
Fique ligado

Ver todos os Posts


 
Home  I  Brasil  I  Artes  I  Fotojornal  I  Almanaque  I  Sobre Nós  I  Fala Leitor  I  Links  
Design Veronica d' Orey  |  Rafael Fittipaldi  |