Artes
Black subversivo
30/11/2009
PEDRO SCHPREJER

Almir Veiga - JB
Black Rio
Uma década antes do funk carioca começar a engatinhar, o soul invadiu os clubes do subúrbio da cidade. Foi o tempo das equipes de som, dos blacks e dos cocotas. 

“Tinha o baile black e o baile da galera que curtia rock, conhecidos como os cocotas. Os cocotas iam pros bailes de rock do subúrbio, tinham cabelo parafinado, visual meio surfista, usavam calça com o rego aparecendo. O negócio deles era só diversão. Já o baile black era mais sério, mais social, todo mundo ia bem vestido, produzido. Era uma espécie de ritual, tinha coreografias ensaiadas, etc ”, recorda DJ Marlboro. “A gente ia para o baile para escutar músicas que não ouvia em lugar nenhum. Algumas delas, quando tocavam, o público urrava. Não tinha internet, era muito difícil conseguir disco importado. Algumas músicas eram preciosidades. Vi um cara trocar um fusca por um compacto importado – não estou brincando”, conclui.

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Tim Maia
A explosão do soul carioca na década de 70 ficou conhecida como movimento Black Rio e reuniu nomes como Tim Maia, Toni Tornado, Gerson King Combo, Cassiano, Carlos Dafé, Banda Black Rio e muitos outros. Os músicos não eram os únicos protagonistas da cena; ainda mais importantes para o público eram as equipes de som, como Soul Grand Prix, Black Power e a recém criada Furacão 2000. Eram mais de 400 equipes, que promoviam bailes freqüentados por incontáveis jovens.

Os Bailes da Pesada promovidos pelo locutor de rádio Big Boy ao lado do DJ Ademir Lemos, aos domingos no Canecão, são considerados o marco inicial das festas black no Rio. Apesar de serem realizados na Zona Sul, os bailes atraiam jovens de toda a cidade para dançar ao som de James Brown, Earth, Wind & Fire, Tower of Power e outros nomes da black music, que dividiam a playlist do DJ com sucessos do rock e do pop. As domingueiras do Canecão, no entanto, não durariam muito. Os donos da casa decidiram interrompê-las para realizar uma temporada de concertos de Roberto Carlos.

Big Boy, agora sem o parceiro Ademir, passou a promover sua festa em diversos clubes do subúrbio carioca, levando sempre uma legião de fieis seguidores. Esta logística itinerante foi adotada por outras equipes que surgiram no período. “Em geral, não tinha isso de freqüentar um baile específico. Nós ficávamos de olho na programação. Aonde quer que as nossas equipes preferidas fossem, nos íamos junto.”, recorda Sir Dema, organizador/DJ das festas Soul Baby Soul e Clube do Soul e um dos principais nomes da recente retomada da black music nas cidades do sudeste.

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James Brown ensinando Johny Carson a dançar
Na década de 70, o soul era uma grande novidade por aqui e a maioria dos discos ainda eram importados e de difícil acesso. Como afirma Hermano Vianna em seu clássico estudo O Baile Funk Carioca: Festas e Estilos de Vida Metropolitanos, muitos dos sucessos daquilo que era chamado de soul pelos DJs cariocas na verdade já pertenciam a um novo estilo, surgido nos EUA nos anos 70: o funk, cujo precursor foi James Brown.

Vendo o potencial do estilo, a mídia passou a cortejar alguns artistas. A TV Globo estudou lançar um programa tendo Tim Maia, Toni Tornado e Gerson King Combo como apresentadores. As gravadoras passaram a investir pesado, lançando diversos artistas que foram na onda do movimento, com destaque para a Banda Black Rio, formada por músicos experientes. A Banda chegou a tocar com Caetano Veloso no show Bicho e lançou três discos oficiais, dentre os quais o histórico Maria Fumaça, até hoje considerado um dos melhores álbuns brasileiros de música instrumental.

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Soul Grand Prix
A figura que talvez melhor encarnou o black power brasileiro foi o lendário Dom Filó, criador da Soul Grandprix, equipe que se identificava mais fortemente com o movimento black power, embora as referências - calça boca-de-sino, roupas coloridas, enjeitadas cabeleiras, etc - fossem mais estéticas do que políticas. “O Dom Filó era um cara muito politizado e carismático. Naquela época, 80 % dos negros não opinavam nada politicamente. Quando viram aquele bando de negão dançando junto, com aquelas roupas e cabelos, os militares perceberam que se nasce um líder ali no meio ia dar uma grande m... para o governo. Foi aí que eles passaram a perseguir os blacks”, explica Malboro. Muitos artistas e donos de equipes foram parar no DOPS e o Black Rio tornou-se subversivo. “A perseguição tirou a força do movimento. O melhor momento musical da humanidade é a música negra do final dos 60 ao inicio dos 80”, opina DJ Marlboro. “É que nem o futebol da época de Pelé e Garrincha. Infelizmente, houve uma interrupção no desenvolvimento da música black brasileira, por conta da ditadura. Mas temos o Tim Maia e tantos outros talentos incríveis”.

Os bailes de rock continuaram rolando durante todo esse tempo. Os cocotas não ameaçavam a segurança nacional como fazia a rapaziada do soul. 

Arquivos JB
Black Power
Era preciso seguir os mandamentos black, como dizia o sucesso de Gerson King Combo. Além da música e dos discos, começava a chegar ao Brasil todo o ideário de orgulho negro e consciência racial exaltado por muitos dos ícones do soul. Nos subúrbios das grandes cidades, a identificação dos jovens foi quase instantânea. Como assinala o cientista político Renato Ortiz, diferentemente do samba, que se tornou um símbolo do Brasil mestiço, muitos viam o soul como uma música feita por negros para negros.

Nascido no sul dos EUA, o estilo parecia refletir o cotidiano e os sentimentos de muitos jovens brasileiros. “Quando tínhamos 15 anos, tentaram nos impor o samba. Mas o soul nos libertou de sermos obrigados a seguir aquele caminho. Percebi que ser um jovem de baixa renda não me obrigava a tocar repique no carnaval. O soul foi uma libertação dessa tradição”, conta Dema.

Em 1976, pelo menos 30 mil pessoas foram ao Portelão para um show de Gerson King Combo. Aquela seria uma noite especial, uma celebração da força do movimento que havia conquistado os subúrbios e a Zona Sul carioca, mas a polícia chegou com toda a truculência, expulsando o público, e o concerto de Combo teve que ser cancelado.

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Dancing Days na Era Disco
No fim dos anos 70, um novo ritmo, ainda mais dançante, desembarcou com força na cidade: era o início da era Disco. Rapidamente, os bailes de rock aderiram aos embalos de sábado à noite e começaram a tocar sucessos dos Bee Gees, das brasileiras Frenéticas e outros. Os bailes soul ainda resistiram por um tempo, mas os blacks também acabaram entrando na onda da disco – nos Estados Unidos, vários grandes nomes da black music há muito flertavam com o novo ritmo em suas canções. Em 1978, o próprio Tim Maia experimentou a nova levada em Tim Maia Disco Club.

Quem diria que a onda disco e a repressão ao soul acabariam aproximando cocotas e blacks, misturando tudo na gênese da cena que daria origem ao funk carioca, no fim dos anos 70? Pelo menos esta é a interpretação que Malboro dá à história do gênero do qual se tornou o maior representante: “Se antes havia 300 bailes soul e 200 de cocotas, nessa época eles viraram 500 bailes funk! Isso ocorreu quando a disco blackeou, ou quando black discotecou", arremata o DJ. 

A fascinante história do movimento Black Rio está sendo documentada e deve ser lançada em 2010, no longa Guerapá! de Mauricio Leal. O diretor entrevistou uma série de figuras importantes da cena soul dos anos 70, como Funky Santos, Peixinho, PC Capoeira e Francisco Black, entre outros. Além disso, o filme irá mostrar também bailes soul atuais no subúrbio carioca, herdeiros da tradição black. “Os bailes não ficam mais tão cheios quanto ficavam, mas são bem animados. Uma parte do pessoal que vai lá viveu aquela época e vai para se encontrar. Todo mundo se conhece, é uma espécie de sociedade secreta do soul”, conta Mauricio.

PROMO GUERAPÁ from Mauricio Leal on Vimeo.

 
 
 
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