Otis Redding foi um dos grandes talentos que a música negra
norte-americana apresentou ao mundo, mas grande parte do público brasileiro ainda
é capaz de coçar o queixo, confusa, quando alguém pergunta sobre ele. É
comum ouvir chutes do quilate de: é um desses guitarristas de blues octogenários
que volta e meia tocam por aqui? É aquele saxofonista de jazz que foi viciado
em heroína? É um ex-ídolo da Motown que virou pastor?
Nada
disso: Otis Redding é um dos maiores soulmen da história, compositor de canções
maravilhosas como These Arms of Mine,
(Sittin’ on) The Dock of the Bay e Respect. Esta última se tornou, na voz
da diva Aretha Franklin, um hino do orgulho negro e um hit indispensável em qualquer festa dançante. Se Ray
Charles era o gênio do soul, e James
Brown o padrinho ou o soul brother Nº
1, Redding ganharia a honra póstuma de rei do soul.
Póstuma, infelizmente, pois este extraordinário talento morreu com apenas 26 anos, em 10
de dezembro de 1967, quando o jato Beechcraft que o levaria a um show caiu em
meio a uma tempestade, no Wisconsin, encerrando precoce e tragicamente a
brilhante carreira de Redding.
| Divulgação |  |  | No Festival de Monterey |  |
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| Poucos
meses antes, com suas baladas sofridas e canções dançantes Redding havia
arrebatado um público de jovens hippies e amantes de rock no lendário festival
de Monterey. Um aperitivo do que a sua carreira prometia ser. Jimmi Hendrix,
outra estrela do festival, tinha Redding como modelo.
Pouca
gente sabe, mas, nos anos 60 e 70, os representantes da Soul Music e o invejável
casting da Motown rivalizavam tanto na concorrência pelo mercado quanto na
forma de enxergar o papel que cabia à música negra. Nascido no sul dos EUA e
muito ligado à cidade de Memphis, no Tennessee, o soul foi um estilo visceral
que alcançou grande popularidade entre os negros, vindo a ser adotado como
manifestação musical que embalou e refletiu os protestos pelos direitos civis
dos anos 60.
O
soul pretendia vir da alma do compositor e dos intérpretes com o mínimo de
filtros estéticos possível. O historiador Paul Friedlander o descreve como um
retrato fiel dos sentimentos dos negros norte-americanos nos anos 60: “romance
e desilusão, amor e luxúria, orgulho, sofrimento e luta”, afirma.
Mais
assimilada pelo grande público, a Motown, gravadora sediada em Detroit e
dirigida por produtores e executivos negros, abocanhou, com sua música mais
formatada, elegante e contida, grande parte do público que ouvia pop music.
Paradoxalmente, os dois principais selos que lançavam artistas de soul, Stax e
Atlantic Records, eram comandados por brancos.
Tanto
a Soul Music quanto os artistas da Motown foram influenciados pelo rythm and
blues e pela música gospel. Os cantos gritados e o tom emocional dos coros da
Igreja Batista americana, de onde vieram nomes como Aretha Franklin - filha de
um poderoso reverendo - e o próprio Otis Redding, influenciaram o modo de
cantar do soul, que, por sua vez,
acabou tornando-se referência para boa parte da música pop que seria feita dali
em diante, a começar pelo funk. Hoje,
basta ouvir um cantor como Ben Harper para perceber a importância do soul na música popular dos séculos XX e
atual.
Embora
o sucesso estrondoso de Redding se restringisse ao universo de jovens negros
americanos, alguns dos ídolos do soul de
Memphis ganharam rios de dinheiro. James Brown chegou a ser dono de jato particular, duzentos imóveis, um castelo vitoriano e três
estações de rádio.
Otis
Redding morreu antes de fazer fortuna, mas é considerado por muitos amantes do
gênero como um artista superior até mesmo a Ray Charles. Poucos meses antes de
morrer, escreveu (Sittin’on)The Dock of the Bay enquanto descansava dentro de
um barco atracado no porto de Salsalito, na Califórnia. A canção acabou se
tornando o seu maior sucesso, ainda que póstumo.
Além
de compositor genial, Redding foi um dos maiores intérpretes do soul. O
fervor espiritual com que cantava, sempre suado e entregue à música, alternando
momentos de profunda exaltação com outros de absurda delicadeza, fez dele uma
verdadeira lenda. Uma pequena historinha ilustra bem o talento do rapaz: tendo
abandonado a escola na adolescência para ajudar a família a pagar as contas,
Redding resolveu concorrer em um show de talentos locais da cidade de Macon, na
Geórgia, onde foi criado. Após faturar quinze edições seguidas do concurso,
cujo prêmio era a assombrosa quantia de U$ 5, ele foi impedido pela organização
de continuar competindo sob a alegação de que era impossível para outro
concorrente vencê-lo.
Hoje,
graças à Internet podemos ver performances incríveis do Rei do Soul, como sua
interpretação do clássico Try a Little Tenderness, em uma turnê na Europa, no
ano em que morreu, ou Respect, que levou Aretha Franklin ao topo da lista nos EUA.
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