|  |  | CAPA: Tudo começa num muro estreito... |  |
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| Um dia ele chegou na Rodoviária Novo Rio, vindo do interior do Brasil. De alguma cidade perdida entre Norte ou Nordeste. Ou Minas Gerais. Não importa. De havaianas, shortinho jeans e bigode à Belchior, em dois tempos se perdeu naquele furdunço de gente. O único que parecia notar a sua existência era um cachorro de rua. Mas o vira-latas queria brincar: num bote, créu! na camisa do sujeito. Afe Maria. Perdido, calorento, e agora com a camisa rasgada. Muito bem. Só lhe restava a companhia do cão, que já terminava de roer o trapo. E agora? O que fazer? Como encontrar Ana, a namorada, que veio antes para a Cidade Maravilhosa?
Este é o início da saga de Zé Ninguém e seu cão Vira-Lata, contada nas ruas do Rio de maneira bastante original: cada situação foi pintada em um muro, partindo da rodoviária e passando por Caju, Centro, até Copacabana. O grafiteiro, ilustrador e quadrinista Alberto Serrano, ou Tito, como é conhecido, ele mesmo um imigrante from Nova Iorque, de família de Puerto Rico, quis ir além dos grafites que fazia - ora figurativos, ora em 3-D. Decidiu contar uma história completa, uma odisséia severina, usando os muros de concreto da cidade como imensas páginas de uma HQ.
Começou a resolver o personagem na sua cabeça: queria um tipo bem brasileiro, mas longe do clichê do malandro bom-de-bola. Um cara simpático, comum, desses que ninguém repara quando está ao lado comendo um joelho no balcão da lanchonete. A única condição era que o personagem tivesse um traço ágil - afinal, Tito ia pintar sozinho em lugares baldios. Riscou, apagou, tentou mais uma vez, lembrou o bigode do pai, também um imigrante de Porto Rico em Nova Iorque. O shortinho jeans e as havaianas foram uma referência das esquinas da cidade. O tom de pele moreno, o cabelo preto, as lembranças da infância em Porto Rico iam se misturando aos rasgos tupiniquins. E assim nasceu o Zé Ninguém: um cara bom, puro, mas azarado. Um Dom Quixote sem Dulcinéia, e com um Vira-Latas como Rocinante.
"É muita gente que se reconhece no Zé"
|  |  | LABUTA: Tito no sobe-desce de escadas |  |
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| O Rio já conta, espalhados, 35 painéis pintados como pequenos episódios – o objetivo é chegar a 101. Desde que se perdeu na rodoviária, em meados do ano passado, Zé já procurou Ana na Avenida Brasil, e tentou "filar um rango" por lá. Já disputou um salgado com seu Vira-latas na esquina da Rua Tonelero com a Figueiredo de Magalhães, em Copacabana. No Caju, Zé morre de saudades.
Aliás, foi graças aos desenhos do Caju que o personagem começou a ganhar fãs: "Recebi muitos e-mails desde que passei a pintar lá, perguntando onde está a Ana, por causa da quantidade de gente que passa de ônibus", avalia Tito. Logo apareceu uma comunidade no orkut, que lhe deu o apelido de Profeta Gentileza do Século 21. Tito se assusta com a comparação, mas reconhece o potencial artístico do lugar: "É muita gente que se reconhece no Zé".
Só enquanto dava esta entrevista, três pessoas reagiram ao desenho ainda incompleto – uma senhora, de dentro do ônibus, gritou "Flores! Pinte umas flores!"; um homem pediu o telefone do artista para "uma exposição", mas sugeriu que ele tirasse o bigode do personagem; e uma mulher, bravejando, disse não entender por que ele não fazia "uns desenhos" que denunciassem a realidade de miséria do país, em vez de super-heróis e ninjas. "Bem se vê que ela sequer reparou o Zé", retrucou Tito, primeiro surpreso, depois mais calmo.
Uma historinha na boca do metrô
|  |  | ATACAR! Na linguagem ágil de HQ |  |
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| Os ambulantes que vendem tapioca, churros e churrasquinho no local, pelo contrário, estão encantados com a história, esperando, ansiosos, o final. "Eu acho lindo, para um monte de turista para tirar foto e eles acabam comprando a minha tapioca", diverte-se Maria do Rosário, salpicando um pouco mais de canela para um freguês.
Depois de um ano em busca da namorada, como pede toda boa narrativa, a vida de Zé Ninguém complicou. Tito criou a série "Street Comics" e transformou a saga do herói-bigodinho em aventuras por capítulos. O primeiro fica pronto ainda esta semana, no muro ao lado da estação de metrô Siqueira Campos, em Copacabana. Tem capa, selo, onomatopéias e todos grafismos característicos de uma boa HQ, com direito a conflitos impostos por inimigos ninjas e cachorros alienígenas.
Tito, no entanto, ainda não sabe onde fazer o segundo capítulo. Tudo depende de autorizações dos responsáveis pelos muros - muitas vezes, gente mais alienígena do que os cachorros verdes das aventuras do Zé. Seu sonho é um muro que namora todos os dias da janela do seu apartamento, ali mesmo em Copacabana, do outro lado da estação de metrô. São quase 50 metros de concreto completamente inutilizados.
"Não entrei em contato com o Metrô ainda, seria um sonho se eles me autorizassem a continuar a história do Zé ali. Pelo tamanho, daria para contar uma aventura ótima", diz Tito, com um sotaque carioca-do-Bronx que mistura expressões como "desenrolei bunito" com "hey, man, cool". "Se ninguém deixar, apago o primeiro capítulo e faço o segundo em cima, mesmo, fazer o quê?". O muro em que trabalha já tinha um grafite de sua autoria, autorizado pela Comlurb. No desenho, Tito fazia uma homenagem aos garis da cidade.
Homenagem aos "trabalhadores invisíveis"
|  |  | DETALHES. O artista em ação |  |
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| "Meu pai era gari em Nova Iorque. Minha primeira mesa de desenho, ele achou no lixo, consertou e me deu. Sempre quis valorizar esta profissão, que considero das mais nobres. O que chamou mais atenção quando cheguei ao Rio, há oito anos, foi que apesar de estarem vestidos de laranja, os garis não eram notados por ninguém. Ninguém os cumprimenta. São trabalhadores invisíveis", diz Tito, lembrando que as pessoas tampouco parecem enxergar as lixeiras, igualmente laranjas, pelo hábito de jogarem lixo nas ruas.
Um detalhe importante: Tito banca todos os gastos sozinho. "O que ganho em trabalhos com grafite, gasto com o Zé", conta. E não é muito. Aos 30, Tito só faz grafite profissionalmente há cerca de dois anos. Apesar de ler quadrinhos e desenhar desde menino, quando ainda morava no Bronx, ele nunca se levou muito a sério. Até conhecer a designer carioca Flávia Oliveira, em Nova Iorque. Mudou-se para o Rio, casaram-se – "Ela é que é meu super-herói", brinca – e um dia um amigo o chamou para fazer um grafite. O trabalho nas ruas fez com que seu português "desenrolasse bunito". Desde então, não parou mais. Influenciado pelos quadrinhos Tintin, Calvin & Haroldo, pela arte de Vaughn Bode e já pelos brasileiríssimos Os Gêmeos, Tito já lançou uma graphic novel e tem um site onde cataloga todos os seus trabalhos . E filma toda história do Zé Ninguém, para lançar como um documentário, o ponto final do projeto.
E afinal, o Zé vai ou não vai encontrar a Ana? Nem Tito sabe. Ele quer um enredo extremamente contemporâneo: "Os homens das cavernas desenhavam o que acontecia no seu tempo, não é? Matei um búfalo hoje, vou lá e desenho um búfalo morto. Eu quero trazer isso de volta, contar a história de um brasileiro que procura a namorada, uma vida melhor, e enquanto isso come um joelho e luta contra uns alienígenas..."
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