Artes
A boca do jazz da Tavares Bastos
08/07/2009
LUCRECIA FRANCO
The Maze, uma viagem ao paraíso de Bob

Divulgação
The Maze
The Maze (o labirinto, em inglês) é o nome do clube e da pousada de Bob Nadkarni, na favela. Fica na Rua Tavares Bastos, no Catete, no número 414, mas é só perguntar pela casa do Bob que todos já conhecem.

Para se chegar lá é preciso gastar sola. A rua é transitável até certo ponto, mas depois caminha-se por um beco, seguindo as indicações dos moradores. Todos conhecem o simpático sexagenário que se mudou pra lá há mais de vinte anos e revolucionou a comunidade.

Quem vê o The Maze de fora não imagina o casarão que se esconde por trás da fachada, e muito menos o que acontece lá dentro. É um espaço amplo, em diferentes níveis, com sofás e mesinhas, telas gigantes pintadas pelo próprio Bob nas paredes, um palco, e, no fundo, o terraço que dá de cara para o Pão de Açúcar. Vista deslumbrante. O Palmalouca esteve lá na noite de jazz de julho e ficou até de madrugada, querendo mais.

Encontro planetário na favela

LUCRECIA FRANCO
Bob
Já na porta, o anfitrião de olhos azuis e cabeça grisalha nos recebeu às gargalhadas, misturando português e inglês. "Welcome! Bem vindos! Come in! ", ele berrava. Entramos com um grupo de neozelandeses .

"Esta é a sessão número 38 da noite de jazz. A gente começou com um público de 12 pessoas e agora nunca tem menos de 400 pessoas aqui. É extraordinário, porque juntou dois mundos que não se misturavam antes: o de lá de baixo, do asfalto, e o de aqui de cima", conta Bob, no seu português com sotaque carregado.

No palco, dois alemães, um belga e um brasileiro tocam Gerswhin, Duke Ellington, Cole Porter e outros. E quem quiser arriscar pode tocar ou cantar com eles. E é claro que o Bob participa: toca trompete e canta com voz rouca, feliz da vida. Afinal é a realização de um sonho.

"Agora tenho um paraíso aqui. Tudo o que você pode imaginar. A vida que eu sempre quis. Consegui a liberdade e, por osmose, eu a transmito pra todo mundo que vem aqui. Eu não poderia morar na Inglaterra nunca mais, meu Deus do Céu!", diz, radiante.

Na platéia, entre caipirinhas e cervejas, gringos de todo o planeta e alguns cariocas se divertem. Dançam, conversam, paqueram. Definitivamente, é um território onde as pessoas se sentem livres, e, por incrível que pareça, não há baixaria. É um ambiente cool, relaxado, como o jazz.

O pessoal da favela também freqüenta o local e gosta muito: "Subconscientemente,  o pessoal se identifica com o jazz porque todos sabem que nasceu no povão, mesmo que não seja brasileiro¨, explica Bob.

A mistura é total. Há jovens classe média, estrangeiros que querem voltar para casa dizendo que conheceram uma favela, e ainda o pessoal da comunidade. Um verdadeiro labirinto de sotaques e sons.

LUCRECIA FRANCO
Sueca, Edgar Duvivier e Pablo Pessanha
No palco, um karaokê de jazz. Na noite em que fomos, cantaram duas inglesas, um brasileiro e, sempre, o Bob. Tocaram ainda outros conhecidos do público carioca: Edgar Duvivier (sax) e Paulo Pessanha, d'Os Optimistas (piano e percussão). Ninguém queria sair dos holofotes.

Selma, mulher do belga Peter, um dos músicos fixos da banda, que toca nos metrôs da Europa e no The Maze, nos conta que os músicos e convidados ficam tocando até sete horas seguidas. "É  uma cachaça", resume.

O certo é que as noites de jazz no The Maze são um sucesso e ajudam a desfazer o estigma de que favela é um lugar proibido para se divertir. Bom, também vale lembrar que uma unidade do Bope está sediada na Tavares Bastos. Hoje, segundo o Bob, os traficantes foram embora e o que ficou é o que as pessoas da aldeia global procuram: calor humano.

"Eu  vim para cá porque me sentia bem. Tem isso do vizinho te pedir uma taça de açúcar, e por aí vai. Tem esse sentimento de comunidade que se perdeu, que foi para o ralo. Não é como na Inglaterra, onde te perguntam se o tempo está bom cada dez anos", brinca.

Além de espaço musical, o The Maze tem uma pousada no segundo andar e ainda serve de locação para documentários, novelas e filmes. O mais recente é O Incrível Hulk II, onde o ator Edward Norton se joga da varanda do Bob.

Anedotas não faltam na vida e na casa do Bob. Vale a pena dar uma chegada lá para conhecer a figura e curtir o som, o ambiente e a vista da Baía da Guanabara. Só recomendamos pegar leve na bebida, para não ficar verde e cair da varanda ou até mesmo virar um Hulk. 




 
 
 
 
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